
Trabalhei uma vez com um rapaz, menino humilde, educado. Todos gostavam dele. Um dia, em desabafo ele teria dito “sabe porque eu sou assim?” E contou sua história:
Filho de advogados (se bem que seu pai não era seu pai, era padrasto), família bem sucedida, tinha uma escritório de advocacia . Além disso, o padrasto tinha três tecelagens no bairro do Bom Retiro, região central de São Paulo. Casa enorme, empregados, carros. Tudo o que o dinheiro pode proporcionar. Inclusive esse rapaz disse que aos dezoito anos, ele já era gerente de uma loja/fábrica de roupas, nenhuma ligação com as que seu pai possuía. Queria ganhar seu próprio dinheiro. Comprou seu carro. Só que segundo ele, os pais, provavelmente por causa do dinheiro, eram orgulhosos, pisavam, humilhavam os outros. E a vida seguia. Um dia, o padrasto recebeu um convite de um empresário no Rio de Janeiro para tomar conta do setor jurídico de sua empresa. E ele foi. Já era bem-sucedido, mas “dinheiro e poder nunca são demais”. Dividia o tempo entre Rio e São Paulo. Passado algum tempo, nova proposta: tornar-se sócio do empresário. Vendeu uma das tecelagens e formou-se a sociedade. Passado mais algum tempo, outra proposta: a compra da empresa, e também a casa onde o homem morava. Não pensou duas vezes. Chegando em casa, comunicou tudo à esposa e enteado. Pôs a casa à venda, e disse que voltaria ao Rio de Janeiro, e assim que tivesse tudo organizado, voltaria para pegá-los. E o rapaz disse que nunca esquece o dia em que o padrasto chegou em casa com uma malinha na mão e disse:”Perdemos tudo.” Na verdade, a empresa, casa, e tudo mais do empresário carioca, era mentira, maquiado. Ele havia perdido ou vendido. Nada era dele. Resumindo: o homem ficou sem as tecelagens, a casa onde morava, a empresa e casa que “havia comprado”, não tinha onde morar, entrou em depressão. Não tinha nem como alugar uma casa; foi morar em um quarto de pensão, separado da mulher. Lembro que na empresa que a gente trabalhava, davam um vale-refeição que só poderia ser usado no restaurante da própria empresa, e a mãe do rapaz ia almoçar lá, provavelmente por não ter condições de subsistência. O rapaz casou, e levou a mãe para morar junto com ele, ou, com eles. Passado algum tempo, em seu perfil da rede social aparecia “viúva”.
A humildade precede a honra, e o orgulho, a queda.