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Saudade

(Canção da Saudade)

Saudade, palavra doce,

Que traduz tanto amargor!

Saudade é como se fosse

Espinho cheirando a flor.

Saudade, ventura ausente,

Um bem que longe se vê,

Uma dor que o peito sente

Sem saber como e porquê.

Um desejo de estar perto,

De quem está longe de nós,

Um ai que não sei ao certo

Se é um suspiro ou uma voz.

Um sorriso de tristeza,

Um soluço de alegria.

O suplício da incerteza

Que uma esperança alivia.

Nessas três sílabas há de

Caber toda uma canção:

Bendita a dor da saudade

Que faz bem ao coração.

Um longe olhar que se lança

Numa carta ou numa flor,

Saudade – irmã de esperança,

Saudade – filha do amor.

Uma palavra tão breve,

Mas tão longe de sentir

E há tanta gente que a escreve

Sem, a saber, traduzir.

“Gosto amargo de infelizes”

Foi como a chamou Garrett;

Coração, calado, dizes

Num suspiro o que ela é.

A palavra é bem pequena,

Mas diz tanto de uma vez;

Por ela valeu a pena

Inventar-se o português.

Saudade – um suspiro, uma ânsia,

Uma vontade de ver

A quem nos vê à distância

Com os olhos do bem querer.

A saudade é calculada,

Por algarismos também:

“Distância” multiplicada,

Pelo fator “Querer bem”.

A alma gela-se de tédio

Enchem-se os olhos de ardor…

Saudade – dor que é remédio,

Remédio que aumenta a dor.

Bastos Tigre

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